75%
dos brasileiros jogam videogame.

Mais de 100 milhões de pessoas — de crianças a adultos, em celulares, consoles e PCs. O Brasil é um dos maiores mercados de games do mundo. Mas quantas dessas pessoas ainda jogam por pura diversão?

Há uns 20 anos, videogames eram novidade — ou pelo menos eram raros e pouco falados. Ninguém tinha videogame em casa. Os consoles mais comuns eram o Super Nintendo e o PlayStation 1, e os jogos eram nada mais que diversão, passatempo. Se você teve algum desses, conhece os clássicos:

Super Mario Top Gear Contra Tartarugas Ninjas F-Zero Street Fighter

Nós tínhamos dois controles, e a hora em que você pedia pro seu pai para deixar você e seu primo jogarem, e ele deixava, aquilo era mágico. O sentimento que precedia uma sessão de jogatina era inconfundível: as corridas uma atrás da outra, as lutas e revanches, as partidas de futebol em que o boneco se movia como peça de xadrez — em apenas oito direções. Era a mais pura diversão.

Não víamos a hora passar, ficávamos entretidos por horas — e tudo bem perder horas na frente da tela. Amanhã era outro dia, com mais 24 horas esperando para serem aproveitadas, seja jogando, brincando na rua, passeando com os pais ou na casa de algum colega. A vida era infinita e havia tempo para tudo.

Vinte anos depois

Hoje os games mudaram. Evoluíram. São tão reais quanto a vida real — a física, a iluminação, a resolução e a performance são super importantes e ultrarrealistas. Os jogos hoje em dia são experiências completas, imersivas. Jogos como The Last of Us ou Red Dead Redemption são obras, e pensar que alguém vá viver uma vida sem experienciá-los é, de certa forma, inacreditável.

Mas quem de nós tem horas para gastar na frente de uma tela com jogos como esses, quando a vida adulta exige tanto tempo para outras coisas? Trabalho, relacionamentos, problemas, projetos, obrigações e responsabilidades. Sem contar que hoje existem jogos que simplesmente não acabam — MMOs e outros games live service. No meu caso, Wuthering Waves, e tantos outros que recebem atualizações por anos: eventos, conquistas para desbloquear, recordes para bater, skins para grindear.

Jogar videogame se tornou, para muitos, um segundo ou terceiro trabalho.

”Preciso zerar esse jogo, preciso jogar aquele lançamento, preciso completar todos os eventos antes que acabem.” E é com essas pessoas que eu quero falar hoje.

O peso de ser adulto

A vida é corrida. A rolagem infinita nas redes nos deixa acelerados e imediatistas. Os stories das outras pessoas nos fazem sentir para trás, e as propagandas de “fique rico logo” fazem parecer que seu trabalho é ainda mais insignificante e perda de tempo. E é aí que parar por horas para assistir a um filme longo ou jogar sem pressa para terminar se torna difícil.

A rotina corrida, os problemas, as tarefas, os lembretes, os eventos, os lugares para ir, as coisas para resolver, as metas para bater, o dinheiro para ganhar — eu sinto que não posso me dar ao luxo de parar tudo para aproveitar duas ou três horas jogando só porque é divertido. Preciso jogar para reivindicar as gemas diárias e partir para a próxima tarefa.

Ser adulto e CLT é um estado difícil de conciliar com hobbies e outros interesses. Cerca de dez horas do seu dia são para enriquecer outra pessoa. Chutando que você não leve mais de 30 minutos para ir e voltar do trabalho — o que não é a realidade da maioria — e supondo que dormindo oito horas você acorde cheio de disposição, você tem seis horas por dia para academia, leitura, jogos, rolês, relacionamento, projetos, planos, imprevistos e tarefas secundárias. Talvez eu só seja ruim em otimizar meu tempo. Ou talvez seis horas realmente não sejam suficientes para viver.

PC vs Console

Desde que montei meu PC gamer, tenho cada vez mais acreditado na teoria de que consoles são mais divertidos. Sentar na frente da TV, ligar o controle e trocar para o canal HDMI era um ritual curto que simbolizava o início de longas horas de diversão.

Sentar no computador para jogar significa uma aba do YouTube no segundo monitor, o Spotify aberto de quando eu estava redigindo algum artigo, o MSI Afterburner ligado para monitorar desempenho e reclamar quando o FPS cai demais. Significa acessar o Claude e o ChatGPT para resolver bugs ou instalar mods — e fazer mil outras coisas de trabalho que se misturam ao ambiente de diversão, tirando dele a única característica que realmente importa: ser diversão.

Quando estou jogando no PC, não me desligo das outras coisas. Elas permanecem ali, em standby, no fundo da mente. Quando ligávamos o console, tudo sumia. Aquele era o momento de não morrer para não passar o controle, de mostrar que você era o melhor nas partidas de futebol ou de Street Fighter. Era aquilo, e ponto.

Saudade

Eu sinto falta do que era jogar videogame na infância. E talvez, mesmo que eu tivesse um console hoje, não seria a mesma coisa.

”Voltar a um lugar do passado é uma armadilha da melancolia. Nem você, nem as pessoas, nem o tempo serão os mesmos de antes.” — Rubem Alves

Talvez isso aqui nem seja sobre videogames. Talvez seja sobre a saudade da infância e dos tempos em que a ingenuidade era uma bênção e o mundo parecia incompreensivelmente grande. Hoje eu sei que o mundo não é tão grande assim. O tempo, por outro lado, é inimaginavelmente extenso — e o que ficou para trás, uma mera lembrança de 20 anos atrás, pode carregar sentimentos imensuráveis: histórias, pessoas, lugares e uma atmosfera que nunca volta e é inigualável.


Isso é só um desabafo do adm. É claro que eu ainda amo jogos — e apesar dos problemas da indústria, eles têm ficado cada vez melhores. Espero poder experienciar muitos, me divertir, me emocionar e até passar raiva com alguns. Mas, além disso, espero atingir um estado de espírito e uma condição de vida que me permitam parar por horas na frente da tela, sem ansiedade ou receio, sem pressa de ir para o próximo.

Agora é a sua vez

Como você se sente hoje em relação aos games? Como funciona sua rotina? Quais jogos te interessam e o que você acha que mudou nos últimos 20 anos?

Se você ainda não tem 20 anos, me conta qual foi o primeiro jogo que você jogou — e se hoje você joga vários ou apenas um.